Faculty Creative Corner

The Creative Corner showcases creative literary works written by faculty members in the Portuguese & Luso-Brazilian Studies Program in the Department of Languages, Literatures and Linguistics at York University.

Marquinha: Uma Avó (In)Vulgar

Marquinha: Uma Avó (In)Vulgar
Maria João Dodman

Sempre considerei que a minha avó era uma avó vulgaríssima. Os que conhecem a realidade dos Açores, saberão muito bem a quem me refiro: àquelas figures tristes, fantasmagóricas, fechadas de preto, de sorrisos magoados e corpos cansados. Elas reúnem certos rasgos psicológicos típicos das mulheres daquela geração: temem ambos Deus e Diabo, acreditam nas almas do outro mundo e dedicam-se totalmente a maridos já há muito defuntos, mas que continuam a dominá-las da cova. Sim, a minha avó era uma destas figuras - acabadinha, curvadinha, de mãos encardidas, desdentada, de cabelos brancos que, às vezes, ainda tentavam espreitar dos lados do lenço preto que os subjugava, símbolo de uma opressão que ela nunca questionou.

Viúva de um marido que eu praticamente nem conheci, a minha avó passou a sua vida como muitas outras mulheres, sem voz, sem nunca sabermos os seus íntimos desejos, invisível. Nos últimos anos tornaram-se evidentes no seu corpo as consequências de uma vida brutal que, numa idade demasiado tenra, começou no passar de mãos - do pai para o marido. Depois, seguiram-se seis filhos, criados em condições deploráveis, talvez ainda piores que aquelas que hoje em dia vemos na televisão nas barrigas de fome das crianças desses imensos terceiros mundos. Ela foi testemunha e vítima de crueldades, de violências domésticas, de maridos viciados no álcool, abandonados às tabernas, rejeitados, e o mundo dela condenou-a a ser o repositório de todas essas frustrações, o bode expiatório, Eva castigada mas sem nunca ter provado o fruto proibido.

Nos últimos anos a clareza de espírito que geralmente acompanha o amadurecer, obrigou-me a reconsiderar a vulgaridade da minha avó. Terá sido ela uma mulher vulgar? Na nossa relação de avó-neta, ela desempenhou a sua função de avó tal como dita a norma. Dava-me mimos infinitos, preparava-me os meus pratos preferidos - as famosas papinhas que eu ainda hoje adoro - enfim, tudo aquilo que é considerado habitual por parte de uma avó. Apesar da sua pobreza, ela ainda me legou uma gaveta de imensos objectos, de que se destacam botões de todos os tamanhos e feitios. Nessa gaveta, a minha imaginação de menina não tinha limites, e o tempo que eu passava a observar esse tesouro foi, sem dúvida, o inicio das muitas aventuras que ainda hoje vou tecendo. Tal como outras avós, a minha também sabia contar histórias ou melhor dito ainda causos, contos de acontecimentos extraordinários. Com o passar dos anos, as histórias de almas do outro mundo, matéria predilecta dos tais causos, deixaram de ser assustadoras e viraram cómicas. Hoje, rio-me do facto de a minha avó teimar na veracidade daqueles estranhos relatos. Éramos muito diferentes eu e ela.

Compreendi rapidamente que o nosso único elo comum era que ambas havíamos nascido mulheres, mas éramos seres de distintos planetas. Mesmo assim, a minha avó, longe de entender o meu mundo ou as minhas modernices, estava consciente de que o meu destino iria ser traçado por mim, pela minha vontade. Sei que ela me considerava, como mo disse inúmeras vezes, bonita e inteligente e, no seu carinho infinito, tudo sempre acabava bem, de preferência com as ditas papinhas. Infelizmente, nos meus limitados horizontes de criança, o que nunca considerei foi como e de onde é que ela conseguia retirar forças, carinho e tanta ternura, sentimentos que lhe foram sistematicamente negados.

Aqueles causos que ela me contava não eram meras fábulas, mas sim, como só agora consigo entender, património do nosso folclore ilhéu, hoje quase desaparecido. Actualmente, incomoda-me o rótulo de vulgar que dei à minha avó, porque a condenei ao silêncio e contribuí, desta maneira, para a sua exclusão da nossa história. Hoje, com ela já falecida há vários anos, ficou-me a amargura de não a ter conhecido melhor. Gostava de lhe ter perguntado se alguma vez tinha sido feliz, se alguma vez conhecera a paixão ou, como conseguira enfrentar aquele mundo escuro, o nada da sua existência.

Afinal não somos de distintos planetas. Foi dela que eu herdei o fascínio pelas bruxas, pelos lobisomens, pelas almas encantados e pelos cobrantos que habitavam os seus contos. O xaile que sempre usava inspirou a minha colecção de xailes: um preto, parecido com o dela, e outros mais audazes. Nunca lhe passaria pela cabeça exibir coisas tão safadas e garridas. Hoje, passeando na baixa de Toronto, paro e aprecio a minha avó invulgar. Admiro a minha imagem nas fachadas envidraçadas dos edifícios modernos da cidade e gosto do que vejo. A minha avó tinha razão - bonita e inteligente! Arranjo o casaco, dou uma volta triunfante ao meu xaile vermelho e aprecio o bater decidido dos meus saltos altos, que anunciam o meu caminhar altivo, seguro. Todo um comportamento tão distinto do da minha avó.

Na caminhada, olho de soslaio a minha imagem que oferece olhares penetrantes aos que se cruzam comigo. Sorrio ao pensar que esta gente não tem a mínima ideia de que eu sou menina das ilhas de bruma, que sou neta daquela avó invulgar que foi dona das memórias da nossa gente e de quem herdei a perseverança necessária para finalmente dar aquela volta triunfante ao meu xaile.

Passados todos estes anos, libertei a minha avó da masmorra do esquecimento, e coloquei-a num jardim de manjericos na minha décima ilha açoriana. Vivo consciente de que sou um vestígio dela. Faço-lhe uma reverência por saber que o meu coração é minúsculo em comparação com o dela - um coração enorme onde couberam todos os mundos possíveis e impossíveis.

Ao contrário da Leonor camoniana, não vou à fonte, mas sim à torre de marfim; caminho formosa e segura, com a certeza de que a minha pele deixa escapar um leve perfume de ilha e mar, o cheiro da minha avó, um pedacinho de uma história construída no feminino, a minha história.

Dodman_MJ_smMaria João Dodman was born and raised in the Azores. Her island roots continue to be a major force behind both her scholarly and her creative endeavors. For Professor Dodman, the islands are a magical place that defy time and transcend the limits of imagination. Thus, the islands, her childhood memories and the stories of her people are always present in her creative writing.

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À Janela

Note: "À Janela” recebeu o 2o Prémio do concurso literário com o tema A Mulher e a Imigração, patrocinado pelo Instituto Camões e o Centro de Estudos Portugueses, University of California, Berkeley. O Prémio foi anunciado por Inês Pedrosa no jantar de encerramento do Congresso A Vez e a Voz da Mulher em Portugal e na Diáspora, 24 de Abril, 2005. Publicado em:The Voice and Choice of Women in Portugal and in the Diaspora, editor Deolinda M. Adão, Berkeley: Institute of Governmental Studies Press, University of California, Berkeley, 2011.

Lisboa, 1962
Tenho três anos. Estou de pé em cima dum banquinho com os cotovelos apoiados no parapeito da janela. Adoro estar à janela. Dizem, “Qual é coisa qual é ela, chega à casa põe-se logo à janela?” “É a Paula.” Sou eu, não é o botão. Sou eu. Tenho cuidado para não cair do banquinho, senão a mamã não me deixa estar aqui mais.

A nossa rua é estreitinha e não passam carros. Não cabem. A mamã diz que a nossa rua foi feita para burros e carroças. Quase que posso tocar na cabeça das raparigas grandes que estão a brincar ao pé coxinho mesmo por baixo da minha janela de rés-do-chão. Com giz azul e cor de rosa, desenharam um avião no alcatrão. A Ana Maria é que está a ganhar. Eu quando for grande, vou ser como a Ana Maria, com tranças e uma bata da escola às risquinhas. Debruço-me para agarrar numa trança, mas não chego lá. A Ana Maria, que estava desequilibrada a tentar pegar na pedrinha, vira-se de repente e faz-me uma careta. “Olha a bébé com a chucha, não tem vergonha de estar para aí a chuchar, a chuchar?” Fico paralisada e chucho na chucha com mais intensidade. Elas, as raparigas grandes, riem-se de mim, mas depois não me ligam nenhuma.

A mamã chama-me de lá de dentro. “Paula, ó Paulinha. vem cá à mamã.” Embora me sinta humilhada pela desfeita da Ana Maria e as suas tranças estúpidas, não quero abandonar o meu poiso. A mamã agarra-me por trás e eu agarro-me ao parapeito com força. Começo a berrar e a chucha cai no chão, no lado de fora da janela. A Ana Maria pega nela e entrega-a à mamã. “Obrigada, Aninhas, tu és sempre tão bem comportadinha.” “Não tem de quê, Dona Emília.” Que injustiça! Continuo a berrar. O meu orgulho doi tanto, tanto e quero a minha chucha. “Vamos lá que o papá está a chegar.”

Berro ainda mais porque quero ficar à janela, porque é tão bom quando o papá chega e sorri ao ver-me à janela, aquele sorriso radiante que só o meu papá tem. E depois o meu sorriso, como um eco visual, e eu a encher as bochechas como um peixe balão, porque o papá, com uma mão só, aperta-me as bochechas e sai um sopro como um punzinho. É por esse momento delicioso que eu espero à janela. E a mamã parece entender o meu pânico porque, com um suspiro, pega-me ao colo e senta-se no banquinho comigo. Ainda estou agarrada ao parapeito da janela e ficamos ali as duas à espera do papá. Sou feliz à janela, com a mamã, à espera do papá,

Toronto, 1967
Vivo em Scarborough num prédio de quatorze andares com janelas grandes e rectangulares. O nosso apartamento é no quinto andar. As janelas têm dois vidros e não abrem nem para fora nem para dentro. Num cantinho pode-se correr os vidros para entrar ar, mas há lá uma rede fininha e por isso não posso pôr a cabeça de fora. Nunca tinha visto janelas assim mas aqui é mesmo tudo diferente.

Já não gosto tanto de estar à janela e não é por ser mais velha. Aqui passam poucas pessoas a pé e as crianças não brincam na rua. A mamã diz que há sítios mais bonitos com árvores e ruas mais estreitas mas por enquanto temos que viver aqui. Que grande chatice. Divirto-me a contar os carros que passam a grande velocidade. São de todas as cores e grandes, enormes, como barcos. O papá diz, “No Canadá os carros compram-se ao metro.”
Foi o que fez mal cá chegamos. Comprou um Impala comprido e vermelho como as cerejas e descapotável. No verão fomos a lagos lisos como espelhos fazer piqueniques e nadar na água limpa e gelada. Ficava sempre arrepiada mas gostava daquele choque ao mergulhar pela primeira vez.

Mas agora é Inverno, as árvores estão nuas e cinzentas, o céu cinzento também e aqui estou feita parva a ver os carros a passar. Na televisão ouve-se o General Hospital. Tento aprender inglês com a televisão porque na escola fazem pouco de mim. “Doctor, willy live?” “Yes, dão-te crai missiz Robinson.”

A mamã vem ter comigo. Tem um ar preocupado. “Que horas são?” “Quase quatro.” “O teu pai já devia ter chegado.” Põe-se à janela e eu vou para ao pé dela. A mamã passa horas à janela à espera do papá. Em Lisboa ela trabalhava mas aqui fica em casa o dia todo sózinha. Gostava de ficar com ela mas tenho que andar naquela maldita escola aonde não conheço ninguém, a aprender aquele maldito inglês.

O telefone toca e a mamã vai a correr atendê-lo. Chama-me porque estão a falar Inglês. Pego no auscultador e oiço aquelas palavras estranhas mas percebo hospital. Fico atrapalhada e digo, “General Hospital, channel 7” desejando que não seja o verdadeiro hospital. A mamã, em pânico, agarra no telefone. “Hospital? Qual hospital? Qual hospital?” Sinto-me mal. Sinto um calor a subir-me à cabeça e depois um frio gelado aperta-me o estômago. Sei que estão a falar do papá. A mamã diz, “Mai ásbande? Ó meu Deus, ó meu Deus.” Desliga, corre para o armário, veste o casaco e agarra na mala. Estou paralisada mas sinto as lágrimas que me molham as bochechas. Queria que tudo voltasse ao normal. Queria olhar pela janela e ver o papá a sair do carro novo cor de cereja e depois eu a correr para ir ter com ele e ele a pegar-me nos braços e eu a sentir a fazenda áspera do casaco dele. Mas agora nada é normal. A mamã veste-me a canadiana que comprámos no Honest Ed’s a semana passada. Depois limpa-me as lágrimas com o lencinho branco que cheira a Evening in Paris. Diz, “Vamos, Paulinha, vamos buscar o papá.” Mas a mamã não deve saber o caminho e não fala inglês, Como é que vamos encontrar o papá nesta cidade estranha e fria?

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aida_jordao_smAida Jordão holds a PhD from the Centre for Drama, Theatre and Performance Studies, University of Toronto, with the thesis, "Inês de Castro in Theatre and Film: A Feminist Exhumation of the Dead Queen." She is a Course Director in Portuguese & Luso-Brazilian Studies and Theatre at York University.

In addition to her scholarly life, Aida enjoys escapades as an actor, director and playwright of popular theatre, feminist plays and Portuguese-Canadian community art projects. Aida has worked worldwide creating original theatre: in Toronto with Nightwood Theatre, Ground Zero Productions and the Company of Sirens, and abroad in Portugal, Nicaragua and Cuba.

Eu queria escrever...

Ines2Eu queria escrever sobre todos os açorianos que já conheci

Inês Cardoso is Sessional Assistant Professor of Portuguese & Luso-Brazilian Studies. She has experience both in teaching and in conducting teacher training in Portugal. She is a specialist in the philosophy and practice of Portuguese language teaching. Her research centers on students’ relationship with language, especially with writing, and on teacher training, particularly developing and publishing course materials and activities so that language learners can communicate meaningfully in Portuguese. At York University, she teaches Portuguese language courses at all levels.

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Dias de mansos recortes

ireneIrene Marques is a bilingual writer (English and Portuguese). She is the author of a short story collection, Habitando na Metáfora do Tempo: Crónicas Desejadas, as well as the poetry collections, Wearing Glasses of Water, The Perfect Unravelling of the Spirit and The Circular Incantation: An Exercise in Loss and Findings. She has two novels scheduled for publication in 2015: My House is a Mansion by York University/Leaping Lion Books (Canada) and Uma casa no mundo by Sextante Editora/Grupo Porto Editora (Portugal).

Marques' creative writing explores issues of personal and collective identity, mystical and mythical understandings of self, world and universe, gender, race, class, cultural syncretism, the Portuguese colonial wars in Africa and the Portuguese fascist regime. It is also characterized by a profound philosophical inquiry that sees the individual as an entity constantly yearning to be "whole" in a markedly socio-political world that divides, dissects, fragments, annihilates, humiliates, and dismisses multidimensional (non-rational) intelligences and their enlightened ways. Her narratives are complex, multifaceted, transhistorical and transtemporal, and abound in metaphorical, lyrical and magic-realist ways. She emigrated from Portugal (Beira Alta region/Continent) to Canada at the age of twenty.

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